Este é o título na edição de hoje, 3.ª Feira, do Diário de Notícias. Dá conta duma afirmação da Ministra da Educação. E mais acrescenta a ministra que nós não somos mais nem menos que os cidadãos dos países desenvolvidos com os quais nos comparamos. Temos inteligência, bons professores e um parque escolar em clara melhoria, portanto a meta dos 100 % não é uma utopia, é uma meta para cumprir.
Apetece dizer que estamos perante uma pessoa sonhadora. E a ser verdade que “o sonho comanda a vida”, como dizia o saudoso poeta, esta meta da Ministra da Educação vai, com toda a certeza, tornar-se realidade. Faltará, talvez, explicar, de que meios se vai socorrer a nossa Administração Educativa para produzir tais resultados.
A verdade é que não basta sermos inteligentes – é evidente que não somos nenhuma raça de segunda categoria, ou estará outra vez em cena a ideia peregrina da superioridade da raça ariana sobre todas as outras?
Quanto a termos bons professores, vinda de quem vem a afirmação é para desconfiar, depois de esta mesma pessoa ter rebaixado, humilhado e desvalorizado socialmente a classe docente como mais ninguém o tinha feito. Dizer genericamente que os professores são bons soa agora a bajulação ou condescendência piedosa. Os professores não são especialmente bons nem especialmente maus, são como os outros profissionais, pessoas normais com níveis diferentes de empenho e competência. Mas são pessoas, com direito a serem tratadas com respeito e dignidade, o que não me parece ter acontecido num passado muito próximo. Esse respeito e dignidade exigem agora que os governantes se deixem de paternalismos hipócritas.
O parque escolar não mudou assim tanto, nem mesmo com a inauguração de dois ou três centros escolares e o anúncio pomposo de várias dezenas de outros já prontos, mas apenas no papel. O parque escolar vai mudando e melhorando a pouco e pouco, mas nada que possa relacionar esta variável com a melhoria milagrosa dos resultados escolares.
Mas mesmo que os professores fossem todos bons e o parque escolar oferecesse as condições ideais para o processo de ensino-aprendizagem, seria isso suficiente para atingirmos os tais 100 % de sucesso no final da escolaridade obrigatória? Haverá alguém com um mínimo de honestidade intelectual que acredite nisso?
Que dizer da política educativa, do excesso de reformas que se substituem umas às outras sem mesmo terem tempo para provarem as suas virtudes, das ambiguidades do discurso oficial que deixam os agentes de ensino e os cidadãos em geral perplexos, sem que se perceba, com um mínimo de clareza, o que é que a Administração pretende exactamente da escola e dos seus agentes?
Que dizer da ignorância ostensiva e intencional evidenciada por quem nos governa relativamente a algumas verdades básicas deste ofício de ensinar e aprender? Por muito que isso custe aos amantes dos números e das estatísticas, por muito que se insista em governar o Sistema Educativo recorrendo a uma lógica e a métodos puramente empresariais, não se pode estabelecer, de modo taxativo, uma relação directa e imediata de causa e efeito entre o acto de ensinar e o acto de aprender, e concluir que se os alunos não aprendem é porque os professores não ensinam. Do mesmo modo, não se pode dizer que, uma vez reunido um conjunto determinado de condições, a aprendizagem acontecerá infalivelmente para todos os alunos. Gostemos ou não da ideia, a Escola é o espaço em que a figura da pessoa humana está no centro de tudo e tudo condiciona. Ora, são tantos e tão variados os elementos intrínsecos e extrínsecos que moldam cada ser humano que é impossível prever e assegurar resultados duma acção limitada no tempo e levada a cabo por uma parte tão ínfima desses factores. Por isso, só por ignorância ou má fé se pode esperar ou proclamar resultados imediatos de medidas acabadas de tomar ou reformas agora mesmo postas no terreno.
Podemos ter uma Escola perfeita, se é que isso existe, mas os tais 100 % de sucesso continuarão a ser uma miragem porque os problemas que, dum modo mais significativo, criam constrangimentos à aprendizagem duma boa parte dos alunos têm a sua origem fora da Escola, e não está nas suas mãos resolvê-los. Talvez fosse bom começar por diminuir as assimetrias, reduzir o desemprego, atenuar o fosso entre pobres e ricos, melhorar os serviços públicos de saúde, banir a exploração vergonhosa do esforço alheio, garantir a todos a qualidade de vida e a dignidade que todos pagam com o seu trabalho diário. Porque enquanto houver um número significativo de portugueses preocupado com as questões básicas da sobrevivência, enquanto houver pobres a quem falta o pão, enquanto as pessoas viverem na incerteza angustiante de vínculos laborais cada vez mais precários, enquanto subsistirem bairros de lata, guetos e discriminação racial, em suma, enquanto os sucessivos governos deste país teimarem em virar costas às verdadeiras políticas sociais, não há Escola capaz de carregar nos ombros o peso dum país que ignora os seus próprios filhos.
Que lugar pode ter o conhecimento, ainda que eminentemente prático, a cultura, os livros, as ciências, mesmo que experimentais, as línguas, as modernas tecnologias da informação e comunicação, o encanto dos portáteis e dos quadros interactivos, e o mais que a escola costuma oferecer, quando se tem fome e frio, quando os pais estão desempregados e a penúria deteriora as relações humanas, quando o bairro em que se vive é um campo de batalha?
Noutro plano, um pouco superior, que equilíbrio emocional podem ter as crianças que se levantam de noite e só de noite regressam a casa, passando o dia fechadas na escola e num qualquer ATL, sem espaço nem tempo para brincar, gastar energias e conviver livremente com as outras crianças da sua idade, crianças cujos pais estão demasiado ocupados com a profissão e o trabalho doméstico, este sempre excessivo para o pouco tempo de que dispõem, crianças abandonadas ao conforto ilusório do sofá, em frente da televisão, da consola de jogos ou do computador? Que consequências tem tudo isto no comportamento dos alunos? É estranho como ainda há tanta gente que estranha os comportamentos agressivos, a indisciplina, a falta de concentração, o desinteresse pelas aprendizagens.
O sonho, que não passa dum logro eleitoralista, só é possível com manobras engenhosas que contornam os verdadeiros problemas, ignorando-os, para produzir um sucesso artificial e perigosamente enganador que nos impede de olhar a realidade de forma esclarecida e rigorosa e de assumir com honestidade o caminho que, de facto, é preciso percorrer, tudo em nome da ilusão de resultados imediatos capazes de gerar dividendos políticos nas eleições que se aproximam.